quinta-feira, 26 de abril de 2012
Estigmação
As folhas secas ainda estão pelo jardim. A luz do sol bate, raiando as primeiras horas da manhã de um outono gelado, mas nem por isso frio. O alaranjado da flor parece dizer “hei, outro dia está ai”.
As ruas ainda desertas. O sol clareando o pouco que se vê. As luzes ainda acesas mostram que o galo ainda não conseguiu cantar.
Tudo parece ser mais difícil. Da até “dó de mim”, como uma amiga me escreveu uma vez.
Ao caminhar, vejo minha respiração saindo de meu rosto. Está gelado, mas não frio.
A epístola na mão guarda uma grande lembrança, que faz questão de não esquecer.
Saudade...Ah, essa palavra poderosa.
Gosta de sentir, de relembrar de um tempo que não volta mais, de uma pessoa que no volta mais. Todos os momentos estão guardados espistolarmente. Todas as lembranças.
O último encontro foi aos 14 anos... Quanto tempo. Quase o dobro de anos.
Aquele aceno de “Adeus” fica marcado na memória. O presente, tão simples para alguns e tão sentimental para outros, ainda guarda com carinho. Apenas uma revista, com uma reportagem que tanto gostava de ler.
O cartão de despedida, o cinema do último dia...quantos anos, quanto tempo.
Hoje os caminhos mudaram. Os milhares de quilômetros de distância nunca os separaram. Mas “infelizmente nem tudo é, exatamente como a gente quer”.
Hoje se descobriram água e óleo. Mas a vontade é de se tornarem margarina, que é a única forma que ambos se juntam.
Os telefonemas não mais existem. Mesmo com toda a tecnologia, ainda preferem as cartas. Aquela ansiedade de chegar às novas escritas, as novas fotos.
Nenhum aniversário havia sido esquecido, porém algo deveria ser feito.
Teve dois pensamentos. Largar tudo e encontra-la ou mata-la de vez. Preferiu a segunda opção.
Calmamente, foi destruindo todas as memórias. O fogo que ardia na fogueira queimava todas as cartas e fotos. Em suma, a vontade era de se atirar na fogueira para salvar tudo, mas sua mente não permitia tal façanha.
Ao queimar as memórias, decidiu queimar a fonte dela.
Pegou a estrada e viajou mais de dois dias até chegar ao encontro.
Ao chegar, se olharam. Ela abriu um sorriso sem graça. Sua vontade era de abraçá-la, beija-la e nunca mais largar. Mas ele tinha um motivo naquela visita.
Muitos anos sem se ver, vidas opostas, tempo passado. As lembranças vieram à cabeça.
Engatilhou. Atirou. A bala entrou certeira na cabeça, deixando uma poça de sangue no chão.
Pessoas que passavam ao lado gritavam em desespero. Um maluco com uma arma, atirando assim, no meio da rua.
Ele ficou com os olhos abertos, estáticos. A frieza de seu olhar demonstrava que, para ele a coisa certa havia sido feita.
Curiosos o chamaram de drogado, maluco. E ele apenas queria acabar com lembranças que atormentavam a sua vida.
Mas ao acabar com essa lembrança, acabou comum passado que não voltará mais. Preso a esse passado, o tiro emsua cabeça foi a sua única saída.
Ela não entendeu muito bem o fato de ele ter viajado tanto tempo para se matar na sua frente. Ao ver a poça de sangue, fechou os olhos e caiu aos prantos.
Suas lágrimas pareciam a pimenta mais ardida que um dia provara. O céu, no memso instante, ficou negro. A vida parecia ter pregado a peça mais semgraça de toda a história.
Percebeu um papel em seu bolso. Relutou pr mover um corpo, com os olhos estáticos no chão. Ao pegr o papel, um bilhete.
“Natasha, venho por esse meio acabar com a memória que mais atormenta a minha vida. Você entrou e transformou minha vida. Do escuro conheci o claro. O que antes era preto e branco havia cores. O céu fundia-se com o mar, e os passaram eram os maestros de minha vida. Agora, preciso acabar com isso, pois não apenas a memória ficou, mas a dor de não te-la comigo. E como todo amor é egoista, resolvi marcar sua vida, de uma forma um pouco mais diferente que você marcou a minha”.
Ah, as lembranças
Noite em claro é assim. As sombras sempre fazem desenhos nas paredes. E nessa noite, não foi nada diferente.
A noite estava gélida. Me sentia no sul do país,mas não estava lá. Muita coisa vinha a minha cabeça. Muitas memórias, muitos presentes e quem sabe algo do futuro.
Vozes surgiam em minha mente. Acendi um cigarro. “Se minha esposa souber que ando fumando novamente ela me mata”, pensei comigo mesmo.
O cigarro me fazia esquecer um pouco desse frio. Estava despreparado. Até tinha blusas e um cobertor, mas estavam no meu quarto e não queria me deslocar para pegá-los.
Lembro de minha filha um dia comentando comigo “Pai, um dia você vai estar sozinho e vai se arrepender de tudo o que já fez”. Ela falou isso porque estava com raiva. Pena ela ter partido sozinha. Infelizmente a fatalidade aquele dia acabou comigo. Ela, toda nervosa, saiu de casa, apenas porque dei uma bronca nela. Ela me engravida e não tinha certeza de quem era. Nossa, minha vontade foi de bater muito nela, mas falei boas merdas. Quando ela saiu de casa, uma pena, aquele carro veio e acabou com uma vida que mal havia começado. Infelizmente ela partiu brigada comigo. Meu Deus, essa dor que nunca acaba.
Essas noites de insônia nunca me deixam tranqüilos. Olho para a lua, olho para o céu...sempre negro como meus pensamentos. Há muito tempo venho pensando se minha vida realmente vela a pena.
Agora, com minha esposa no hospital, preciso de mais força...ah, as memórias. Lembro-me quando a gente se conheceu. Estava tão frio quanto hoje. As nuvens baixas deixavam uma linda neblina no ar. Eu a vi chorando na rua perguntei o que a fazia tão triste e que os olhos dela eram lindos para ter alguma lágrima. Foi o primeiro sorriso que consegui tirar dela, de muitos outros. Desde então, não nos separamos mais. São exatos 16 anos dessa alegria, mas desde que nossa menina se foi ela anda doente.
Sem minha menina fico pensando que a minha vida não vale muito a pena. Mas sempre penso que se eu partir, o rombo no coração de minha amada será maior do que já está...Ah, as lembranças.
Minhas palavras são soltas no ar, assim como minhas lembranças...merda de brasa que cai na roupa...Minhas memórias vão e vem na maior facilidade. Primeiro beijo, primeira namorada, primeiro dia de aula, primeiros passos, primeira briga, primeira vez, primeira nota boa,o que sempre foi raro...Mas desde que a menina se foi, as memórias são apenas aleatórias.
Lembro-me do primeiro sorriso dela. Ainda na maternidade, a enfermeira a pegou e levantou para tirar uma foto, através do vidro mesmo. Foi ai que ela sorriu. E o papai babão aqui se derreteu todo. E hoje, só as lembranças me acompanham...
(o telefone toca)
Não posso acreditar...pelo menos a minha vida agora tem um outro sentido.
(Ouve-se um barulho de tiro)
Perfume
A tarde já não fazia mais tanto sol. O dia estava quente, mas o sol já estava se escondendo por entre vales e montanhas da serra paulista.
Dentro daquele salão, com computadores e crianças, a vejo. Cabelos claros, como fios do mais puro ouro.
Amais pureza das purezas que já vi em minha vida.
Os olhos verdes reluziam naquele final de tarde. Um leve caminhar pela cachoeira me fez imaginar que o mundo poderia acabar ali, que eu estaria feliz demais para lamentar algo.
Aquela língua presa, um sotaque e os óculos me fizeram ter a certeza que nunca mais sairia de minha mente.
Uma rápida visita até um alambique. E veio um trecho de um diálogo que nunca esqueci. “Óculos, sotaque de caipira e língua presa”. Logo pude responder. “Se melhorar estraga”.
Ao adentrar no carro, aquele perfume tomava conta do ambiente. “Nossa, que perfume maravilhoso”. Não sei porque fiz esse comentário. Acho que pensei alto demais, mas tive tempo de arrumar. “Que perfume?” “Esse, de natureza”. Porque falei isso não sei. Talvez pela minha timidez, talvez pelo fato de ter medo de sofrer uma represália. Só sei que esse mesmo perfume nunca mais foi esquecido.
Fomos para um sítio onde fabricavam mel. Lá, o mel se tornará amargo perto da doce voz dela. A magia de seu olhar, a maciez de sua pele me contagiava cada vez mais. Curtia cada segundo ali perto, pois sabia que meu contato não iria além disso.
Ao ir embora, eis que pergunto. “Que perfume você usa?” Ela riu e falou o nome do tal. Assim que entrou no ônibus, sabia que seria meu último contato.
Tentar um beijo? Jamais, isso não teria boas consequências. Tentar um contato futuro? Boa ideia. Trocamos telefones. Nunca liguei, mas sei que também marquei sua vida.
Mas que esse perfume ainda me desnorteia...Ah, uma Branca sensação de cabeça perdida...
Pode apostar
Por mais forte que parecemos
Por mais frieza que possamos transmitir
E por todo o tempo
Nós que estamos sempre na estrada
Sofremos de um mal necessário
Saudade
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Lembo-me muito bem. Esse calor que consome meu corpo, junto com o calor do corpo dela.
O atrito.
O suor.
Os gemidos.
Os beijos molhados por todo o corpo.
Parece que esse tempo todo,separados, não passou. Ficou ali, intacto para ser cultivado novamente.
Explosão se sentidos.
Dejavu´s.
Parece que sabemos muito bem o mapa do corpo um do outro.
O universo ficou pequeno para tudo.
O mundo poderia cair lá fora, que estavamos muito bem.
Os beijos... pareciam que foram feitos na medida para encaixar perfeitamente.
Hoje são apenas lembranças. Mas quem sabe em breve...
O atrito.
O suor.
Os gemidos.
Os beijos molhados por todo o corpo.
Parece que esse tempo todo,separados, não passou. Ficou ali, intacto para ser cultivado novamente.
Explosão se sentidos.
Dejavu´s.
Parece que sabemos muito bem o mapa do corpo um do outro.
O universo ficou pequeno para tudo.
O mundo poderia cair lá fora, que estavamos muito bem.
Os beijos... pareciam que foram feitos na medida para encaixar perfeitamente.
Hoje são apenas lembranças. Mas quem sabe em breve...
sábado, 24 de março de 2012
Caes
Você precisa ser louco,
Você precisa ter um motivo de verdade
Você precisa dormir sobre seus dedos do pé
E quando você estiver na rua
Precisa ser capaz de escolher a carne fácil
Com os olhos fechados
E depois se movendo silenciosamente,
Contra o vento e escondido
Você tem que atacar no momento certo
Sem pensar.
E passado algum tempo
Você pode trabalhar em pontos por estilo
Como a gravata
E um firme aperto de mão
Um certo olhar nos olhos,
E um sorriso fácil
Você tem que passar confiança
Para as pessoas que você mente
Para que quando elas virarem as costas
Você tenha a chance de enfiar a faca
Você precisa manter um olho
Sempre olhando por cima do seu ombro
Você sabe que ficará cada vez mais difícil,
E mais dificil e mais difícil conforme vai envelhecendo
É, e no fim arrumará as malas e
Voará para o sul
Esconder sua cabeça na areia
Apenas outro velho triste e sozinho
Morrendo de câncer.
E quando você perder o controle,
Você colherá o que plantou
E à medida que o medo cresce,
O sangue ruim azeda e vira pedra
E é tarde demais para largar o peso
Que você costumava jogar por aí
Então se afogue,
Enquanto você vai afundando sozinho
Arrastado pra baixo pela pedra.
Eu tenho que admitir
Que estou um pouco confuso
As vezes me parece
Que estou sendo usado
Preciso ficar acordado, e tentar sacudir
Esse mal-estar rastejante
Se não estou pisando em meu próprio chão
Como poderei encontrar a saída deste labirinto?
Surdo, mudo e cego,
Você apenas continua fingindo
Que todos são dispensáveis
E ninguém teve um amigo de verdade
E parece que a solução
Seria isolar o vencedor
E tudo é feito sob o sol
E você acredita que lá no fundo todo mundo é um assassino
Que nasceu numa casa cheia de dor
Que foi treinado para não cuspir no ventilador
Que foi ordenado pelo homem a o que fazer
Que foi quebrado por pessoal treinado
Que estava usando colarinhos e correntes
Que levou um tapinha nas costas
Que andava fugindo da matilha
Que era apenas um estranho em casa
Que foi triturado no fim
Que foi encontrado morto ao telefone
Que foi arrastado pra baixo pela pedra
Que foi arrastado pra baixo pela pedra.
Você precisa ter um motivo de verdade
Você precisa dormir sobre seus dedos do pé
E quando você estiver na rua
Precisa ser capaz de escolher a carne fácil
Com os olhos fechados
E depois se movendo silenciosamente,
Contra o vento e escondido
Você tem que atacar no momento certo
Sem pensar.
E passado algum tempo
Você pode trabalhar em pontos por estilo
Como a gravata
E um firme aperto de mão
Um certo olhar nos olhos,
E um sorriso fácil
Você tem que passar confiança
Para as pessoas que você mente
Para que quando elas virarem as costas
Você tenha a chance de enfiar a faca
Você precisa manter um olho
Sempre olhando por cima do seu ombro
Você sabe que ficará cada vez mais difícil,
E mais dificil e mais difícil conforme vai envelhecendo
É, e no fim arrumará as malas e
Voará para o sul
Esconder sua cabeça na areia
Apenas outro velho triste e sozinho
Morrendo de câncer.
E quando você perder o controle,
Você colherá o que plantou
E à medida que o medo cresce,
O sangue ruim azeda e vira pedra
E é tarde demais para largar o peso
Que você costumava jogar por aí
Então se afogue,
Enquanto você vai afundando sozinho
Arrastado pra baixo pela pedra.
Eu tenho que admitir
Que estou um pouco confuso
As vezes me parece
Que estou sendo usado
Preciso ficar acordado, e tentar sacudir
Esse mal-estar rastejante
Se não estou pisando em meu próprio chão
Como poderei encontrar a saída deste labirinto?
Surdo, mudo e cego,
Você apenas continua fingindo
Que todos são dispensáveis
E ninguém teve um amigo de verdade
E parece que a solução
Seria isolar o vencedor
E tudo é feito sob o sol
E você acredita que lá no fundo todo mundo é um assassino
Que nasceu numa casa cheia de dor
Que foi treinado para não cuspir no ventilador
Que foi ordenado pelo homem a o que fazer
Que foi quebrado por pessoal treinado
Que estava usando colarinhos e correntes
Que levou um tapinha nas costas
Que andava fugindo da matilha
Que era apenas um estranho em casa
Que foi triturado no fim
Que foi encontrado morto ao telefone
Que foi arrastado pra baixo pela pedra
Que foi arrastado pra baixo pela pedra.
quarta-feira, 21 de março de 2012
As Mineiras - Drummond
O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.
Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora?
Porque, Deus, que sotaque!
Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde.
Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.
Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: 'pó parar').
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.
Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz de direito, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço.
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: 'cê tá boa?'
Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.
Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer:
Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar.
Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.
Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta.
Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:
Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não,sô.
Esse 'aqui' é outro que só tem aqui.
É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase.
É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, 'olá, me escutem, por favor'.
É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.
Mineiras não dizem 'apaixonado por'.
Dizem, sabe-se lá por que, 'pêxonado com' . Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: 'Ah, eu pêxonei com ele...'.
Ou: 'sou doida com ele' (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro).
Elas vivem apaixonadas 'com' alguma coisa.
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de 'bonitim', 'fechadim', e por aí vai.
Já me acostumei a ouvir: 'E aí, vão?'. Traduzo: 'E aí, vamos?'.
Não caia na besteira de esperar um 'vamos' completo de uma mineira. Não ouvirá nunca. Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.
No supermercado, não faz muitas compras, ele compra
'um tanto de côsa'.
O supermercado não estará lotado, ele terá 'um tanto de gente'.
Se a fila do caixa não anda, é porque está 'agarrando' [aliás, 'garrando'] lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena,
suspirará: Ai, gente, que dó. É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.
Não vem caçar confusão pro meu lado.
Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro 'caça confusão'.
Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele 'vive caçando confusão'.
Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom vai dizer: 'Ô, é sem noção'.
Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do 'tanto de bom' que é. Só não esqueça, por favor, o 'Ô' no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?
Capaz... Se você propõe algo e ela diz: capaz!!!
Vocês já ouviram esse 'capaz'? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer 'ce acha que eu faço isso'? com algumas toneladas de ironia...
Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá:
'Ô dó dôcê'.
Entendeu? Não? Deixa para lá.
É parecido com o 'nem...'. Já ouviu o 'nem...'?
Completo ele fica:- Ah, nem...
O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum.
Você diz: 'Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?'.
Resposta: 'Nem...' Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.
Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta: 'você não vai?'.
A pergunta, mineiramente falando, seria: 'cê não anima de ir'?
Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.
É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...
Falando em'ei...'.
As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o 'ei' no lugar do 'oi'.
Você liga, e elas atendem lindamente: 'eiiii!!!', com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade... Tem tantos outros...
O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema.
Sou, não nego, suspeito.
Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada.
Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.
Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar umas coisas...
Que' s côsa? - ela retrucará.
O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.
Ouvi de uma menina culta um 'pelas metade', no lugar de 'pela metade'.
E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará:
Ele pôs a culpa 'ni mim'.
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas...
Ontem, uma senhora docemente me consolou: 'prôcupa não, bobo!'.
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se
espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética. E diz tudo.
Até o 'tchau' em Minas é personalizado.
Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: 'tchau procê', 'tchau procês'.
É útil deixar claro o destinatário do tchau.
Então...
Nota do Blog - Nenhum homem no mundo será 100% feliz se não escutar um uai ao pé do ouvido
Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora?
Porque, Deus, que sotaque!
Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde.
Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.
Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: 'pó parar').
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.
Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz de direito, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço.
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem.
Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: 'cê tá boa?'
Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.
Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada.
Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer:
Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar.
Se lhe perguntarem com que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.
Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta.
Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:
Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não,sô.
Esse 'aqui' é outro que só tem aqui.
É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase.
É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, 'olá, me escutem, por favor'.
É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.
Mineiras não dizem 'apaixonado por'.
Dizem, sabe-se lá por que, 'pêxonado com' . Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: 'Ah, eu pêxonei com ele...'.
Ou: 'sou doida com ele' (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro).
Elas vivem apaixonadas 'com' alguma coisa.
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de 'bonitim', 'fechadim', e por aí vai.
Já me acostumei a ouvir: 'E aí, vão?'. Traduzo: 'E aí, vamos?'.
Não caia na besteira de esperar um 'vamos' completo de uma mineira. Não ouvirá nunca. Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal.
Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas.
No supermercado, não faz muitas compras, ele compra
'um tanto de côsa'.
O supermercado não estará lotado, ele terá 'um tanto de gente'.
Se a fila do caixa não anda, é porque está 'agarrando' [aliás, 'garrando'] lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena,
suspirará: Ai, gente, que dó. É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.
Não vem caçar confusão pro meu lado.
Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro 'caça confusão'.
Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele 'vive caçando confusão'.
Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom vai dizer: 'Ô, é sem noção'.
Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do 'tanto de bom' que é. Só não esqueça, por favor, o 'Ô' no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?
Capaz... Se você propõe algo e ela diz: capaz!!!
Vocês já ouviram esse 'capaz'? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer 'ce acha que eu faço isso'? com algumas toneladas de ironia...
Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá:
'Ô dó dôcê'.
Entendeu? Não? Deixa para lá.
É parecido com o 'nem...'. Já ouviu o 'nem...'?
Completo ele fica:- Ah, nem...
O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum.
Você diz: 'Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?'.
Resposta: 'Nem...' Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.
Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta: 'você não vai?'.
A pergunta, mineiramente falando, seria: 'cê não anima de ir'?
Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.
É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...
Falando em'ei...'.
As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o 'ei' no lugar do 'oi'.
Você liga, e elas atendem lindamente: 'eiiii!!!', com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade... Tem tantos outros...
O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema.
Sou, não nego, suspeito.
Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada.
Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão.
Se você, em conversa, falar: Ah, fui lá comprar umas coisas...
Que' s côsa? - ela retrucará.
O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.
Ouvi de uma menina culta um 'pelas metade', no lugar de 'pela metade'.
E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará:
Ele pôs a culpa 'ni mim'.
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas...
Ontem, uma senhora docemente me consolou: 'prôcupa não, bobo!'.
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se
espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética. E diz tudo.
Até o 'tchau' em Minas é personalizado.
Ninguém diz tchau pura e simplesmente.
Aqui se diz: 'tchau procê', 'tchau procês'.
É útil deixar claro o destinatário do tchau.
Então...
Nota do Blog - Nenhum homem no mundo será 100% feliz se não escutar um uai ao pé do ouvido
Assinar:
Postagens (Atom)
